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Entre a escrita e a política
Luciana Villar
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A 4ª edição da FLIP - Festa Literária Internacional de Parati, que se encerrou no dia 13 de agosto, confirmou todos os prognósticos acerca da tônica dominante do encontro. Em outras palavras, como já era de se esperar, o principal assunto das mesas recaía, quase que em sua totalidade, sobre questões atuais de política internacional e, em última instância, sobre a hegemonia econômica, política e cultural norte-americana.

Já na quinta-feira, o poeta britânico Benjamin Zephaniah, em mesa intitulada Palavras da rua, ao falar sobre sua infância e adolescência, mostrou a dificuldade de se superarem a pobreza e a discriminação racial em seu país, um dos mais ricos do mundo. Zephaniah fez questão de se assumir engajado e confessou que seus livros são porta-vozes de todos os marginalizados da Grã-Bretanha.

O dia seguinte começou com a mesa Prosa, política e história, na qual o escritor francês Olivier Rolin leu trecho do livro Tigre de papel, narrando sua trajetória política e literária, de maio de 68 a nossos dias. No debate seguinte, As matérias do romance, Ignácio de Loyola Brandão e Miguel Sanches Neto falaram sobre suas respectivas obras, carregadas de registros autobiográficos, onde suas vidas pessoais se cruzam, inexoravelmente, com os últimos acontecimentos do país. Brandão arrancou aplausos da platéia quando leu uma dedicatória dirigida a seus netos, pedindo-lhes desculpas pelo país que sua geração havia legado à deles.

Desordem mundial
Como não poderia deixar de ser, a palestra proferida pelo romancista e ensaísta paquistanês Tariq Ali foi uma reflexão sobre a forma como o Ocidente aborda o mundo islâmico e, mais precisamente, as recentes incursões militares daquele sobre o Oriente Médio. Tariq encabeçou um manifesto contra a invasão norte-americana no Líbano, o que recebeu adesões, de um lado, e protestos, de outro, principalmente por parte de escritores que se ressentiram contra o tom eminentemente político da Festa. Em Profissão repórter: a arte da reportagem, os jornalistas Lílian Ross e Philip Gourevitch discorreram sobre o papel do repórter envolvido com grandes eventos. Quando foi dada a palavra à platéia para perguntas, a maioria foi sobre o livro-relato que Gourevitch escreveu sobre o genocídio em Ruanda.

O tom testemunhal também foi aquele escolhido pela Prêmio Nobel de Literatura de 1993 Toni Morrison, ao expor sobre a Arte de Narrar. A romancista disse que ainda é inevitável, para ela, falar sobre sua condição de negra e pobre, ao escrever seus romances. Grande parte da conferência denunciou a fratura social e racial exposta pela passagem do furacão Katrina nos Estados Unidos, onde, segundo ela, subsiste uma espécie de apartheid silencioso, deliberadamente camuflado pela mídia daquele país.

No sábado, Ferreira Gullar e Mourid Barghouti falaram de suas experiências no exílio. O brasileiro foi muito ovacionado quando leu trecho de seu Poema Sujo, escrito há trinta anos, quando de sua expatriação forçada. O palestino também recitou um poema, em sua língua natal, seguido da leitura traduzida para o português, na voz do mediador Alberto Mussa. Ambos foram enfáticos ao defenderem que, embora a experiência do exílio seja um arquétipo da condição humana, deve-se lutar contra as injustiças que levam milhões de seres, em todo o mundo, a refugiarem-se nessa condição.

Linhas de combate
Mas talvez a mais inflamada de todas as discussões tenha sido aquela travada durante Profissão repórter: na linha de frente, entre Fernando Gabeira e Christopher Hitchens. Recentemente eleito como um dos cinco maiores intelectuais da atualidade, Hitchens irritou-se com o conteúdo polêmico das perguntas da platéia, após ter se declarado favorável à intervenção européia e norte-americana em países do Oriente Médio. Gabeira foi também instado a responder sobre o duvidoso futuro de Cuba e concluiu dizendo que as utopias só serviram para disseminar ódios e destruições ao longo da História.

Nas fronteiras da narrativa, que contou com as participações da escocesa Ali Smith e do norte-americano Jonathan Safran Foer, quase conseguiu escapar do tema. O escritor, cujo último livro Extremamente alto e incrivelmente perto fala dos atentados do 11 de setembro, reclamou da falta de discussões sobre a literatura per se. Já Ali Smith, que exaltou a importância da educação literária em seu país natal, fez um breve elogio do papel que a mesma pode exercer para a construção de uma cultura da alteridade.

O último dia da FLIP começou com a fala emocionada de Adélia Prado, naquele que talvez tenha sido o discurso mais comovente da Festa. A poeta católica conclamou os presentes a uma profunda revisão de valores, falando sobre a estreita relação entre “o egoísmo de nossas existências individuais e a extrema violência da vida coletiva”. Como sempre tem feito ao longo de sua obra, a escritora mineira ressaltou a importância da poesia no cotidiano, invocando o seu poder transcendente.

Homens e livros
Em África, Áfricas, que foi praticamente a derradeira mesa da edição de 2006, já que na última propriamente dita os convidados revelaram seus livros de cabeceira, o nigero-americano Uzodinma Iweala e o angolano Ondjaki renderam tributo à infância no mais pobre dos continentes. Em Feras de lugar nenhum, Iweala denuncia as formas como o conflito armado aniquila a inocência. Já em livros como Bom dia camaradas e Quantas madrugadas tem a noite, Ondjaki explora com lirismo as memórias da infância em uma Angola pós-guerra civil.

Foto: Elisabeth VargasEmbora esta 4ª versão da Festa Literária tenha recebido muitas críticas sobre a quase onipresença de temas políticos em meio às discussões, a sensação foi de que a mesma era praticamente inevitável, devido ao alto grau de tensão, do qual não mais escapa nenhuma parte do planeta. Prova disso é a quantidade de vezes em que a palavra medo foi mencionada pelos escritores, como que para definir o sentimento que parece predominar no mundo atual. Ameaça terrorista, risco de guerra civil, catástrofes naturais que expõem discriminações seculares, tudo parece contribuir para uma pandemia pessimista. Mas quem compareceu à FLIP foi embora com a impressão de que o melhor antídoto contra a intolerância massificada ainda é o diálogo inteligente.

 

 
 
 
 
 
 

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