|
|

|
Entre a
escrita e a política
Luciana
Villar
Assessoria de Comunicação
Social CCJF
Tels. (21) 3261-2576 / 3261-2558
imprensa.ccjf@trf2.gov.br |
A 4ª edição da FLIP - Festa Literária
Internacional de Parati, que se encerrou no dia 13 de agosto,
confirmou todos os prognósticos acerca da tônica
dominante do encontro. Em outras palavras, como já
era de se esperar, o principal assunto das mesas recaía,
quase que em sua totalidade, sobre questões atuais
de política internacional e, em última instância,
sobre a hegemonia econômica, política e cultural
norte-americana.
Já na quinta-feira, o poeta britânico Benjamin
Zephaniah, em mesa intitulada Palavras da rua,
ao falar sobre sua infância e adolescência,
mostrou a dificuldade de se superarem a pobreza e a discriminação
racial em seu país, um dos mais ricos do mundo. Zephaniah
fez questão de se assumir engajado e confessou que
seus livros são porta-vozes de todos os marginalizados
da Grã-Bretanha.
O dia seguinte começou com a mesa Prosa, política
e história, na qual o escritor francês
Olivier Rolin leu trecho do livro Tigre de papel,
narrando sua trajetória política e literária,
de maio de 68 a nossos dias. No debate seguinte, As
matérias do romance, Ignácio de Loyola
Brandão e Miguel Sanches Neto falaram sobre suas
respectivas obras, carregadas de registros autobiográficos,
onde suas vidas pessoais se cruzam, inexoravelmente, com
os últimos acontecimentos do país. Brandão
arrancou aplausos da platéia quando leu uma dedicatória
dirigida a seus netos, pedindo-lhes desculpas pelo país
que sua geração havia legado à deles.
Desordem mundial
Como não poderia deixar de ser, a palestra proferida
pelo romancista e ensaísta paquistanês Tariq
Ali foi uma reflexão sobre a forma como o Ocidente
aborda o mundo islâmico e, mais precisamente, as recentes
incursões militares daquele sobre o Oriente Médio.
Tariq encabeçou um manifesto contra a invasão
norte-americana no Líbano, o que recebeu adesões,
de um lado, e protestos, de outro, principalmente por parte
de escritores que se ressentiram contra o tom eminentemente
político da Festa. Em Profissão repórter:
a arte da reportagem, os jornalistas Lílian
Ross e Philip Gourevitch discorreram sobre o papel do repórter
envolvido com grandes eventos. Quando foi dada a palavra
à platéia para perguntas, a maioria foi sobre
o livro-relato que Gourevitch escreveu sobre o genocídio
em Ruanda.
O tom testemunhal também foi aquele escolhido pela
Prêmio Nobel de Literatura de 1993 Toni Morrison,
ao expor sobre a Arte de Narrar. A romancista disse
que ainda é inevitável, para ela, falar sobre
sua condição de negra e pobre, ao escrever
seus romances. Grande parte da conferência denunciou
a fratura social e racial exposta pela passagem do furacão
Katrina nos Estados Unidos, onde, segundo ela, subsiste
uma espécie de apartheid silencioso, deliberadamente
camuflado pela mídia daquele país.
No sábado, Ferreira Gullar e Mourid Barghouti falaram
de suas experiências no exílio. O brasileiro
foi muito ovacionado quando leu trecho de seu Poema
Sujo, escrito há trinta anos, quando de sua
expatriação forçada. O palestino também
recitou um poema, em sua língua natal, seguido da
leitura traduzida para o português, na voz do mediador
Alberto Mussa. Ambos foram enfáticos ao defenderem
que, embora a experiência do exílio seja um
arquétipo da condição humana, deve-se
lutar contra as injustiças que levam milhões
de seres, em todo o mundo, a refugiarem-se nessa condição.
Linhas de combate
Mas talvez a mais inflamada de todas as discussões
tenha sido aquela travada durante Profissão repórter:
na linha de frente, entre Fernando Gabeira e Christopher
Hitchens. Recentemente eleito como um dos cinco maiores
intelectuais da atualidade, Hitchens irritou-se com o conteúdo
polêmico das perguntas da platéia, após
ter se declarado favorável à intervenção
européia e norte-americana em países do Oriente
Médio. Gabeira foi também instado a responder
sobre o duvidoso futuro de Cuba e concluiu dizendo que as
utopias só serviram para disseminar ódios
e destruições ao longo da História.
Nas fronteiras da narrativa, que contou com as
participações da escocesa Ali Smith e do norte-americano
Jonathan Safran Foer, quase conseguiu escapar do tema. O
escritor, cujo último livro Extremamente alto
e incrivelmente perto fala dos atentados do 11 de setembro,
reclamou da falta de discussões sobre a literatura
per se. Já Ali Smith, que exaltou a importância
da educação literária em seu país
natal, fez um breve elogio do papel que a mesma pode exercer
para a construção de uma cultura da alteridade.
O último dia da FLIP começou com a fala emocionada
de Adélia Prado, naquele que talvez tenha sido o
discurso mais comovente da Festa. A poeta católica
conclamou os presentes a uma profunda revisão de
valores, falando sobre a estreita relação
entre “o egoísmo de nossas existências
individuais e a extrema violência da vida coletiva”.
Como sempre tem feito ao longo de sua obra, a escritora
mineira ressaltou a importância da poesia no cotidiano,
invocando o seu poder transcendente.
Homens e livros
Em África, Áfricas, que foi praticamente
a derradeira mesa da edição de 2006, já
que na última propriamente dita os convidados revelaram
seus livros de cabeceira, o nigero-americano Uzodinma Iweala
e o angolano Ondjaki renderam tributo à infância
no mais pobre dos continentes. Em Feras de lugar nenhum,
Iweala denuncia as formas como o conflito armado aniquila
a inocência. Já em livros como Bom dia
camaradas e Quantas madrugadas tem a noite,
Ondjaki explora com lirismo as memórias da infância
em uma Angola pós-guerra civil.
Embora
esta 4ª versão da Festa Literária tenha
recebido muitas críticas sobre a quase onipresença
de temas políticos em meio às discussões,
a sensação foi de que a mesma era praticamente
inevitável, devido ao alto grau de tensão,
do qual não mais escapa nenhuma parte do planeta.
Prova disso é a quantidade de vezes em que a palavra
medo foi mencionada pelos escritores, como que
para definir o sentimento que parece predominar no mundo
atual. Ameaça terrorista, risco de guerra civil,
catástrofes naturais que expõem discriminações
seculares, tudo parece contribuir para uma pandemia pessimista.
Mas quem compareceu à FLIP foi embora com a impressão
de que o melhor antídoto contra a intolerância
massificada ainda é o diálogo inteligente.
|
|