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O status do artista no Renascimento
italiano
Juliana
Rodrigues*
Assessoria de Comunicação
Social CCJF
Tels. (21) 3261-2576 / 3261-2558
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Durante a Idade Média, o confronto entre a aparência
externa do mundo e a lente espiritual proporcionou uma
produção artística ligada à subjetividade
e repleta de simbolismos religiosos. Como era a estética
do sagrado que prevalecia, a arte tornou-se subjugada à religião
e servia, em muitos casos, como suporte didático
para a leitura do Evangelho. O trabalho de arte não
encerrava valor em si mesmo, dependia do religioso.
Os artesãos,
em sua maioria adeptos do Cristianismo, também rejeitaram
o mundo natural, voltando-se para o domínio de inspiração
religiosa. A arte medieval negava o sujeito e o objeto, pois ambos estavam a
serviço do Senhor. Os vitrais de uma catedral gótica, por exemplo,
não tinham o belo como função primeira, mas sim a de contribuir
para a ascese ao divino e a compreensão da Palavra.
A ruptura
com o Medievo ocorreu na arte principalmente em função
do advento do capitalismo e da prática do mecenato,
os quais modificaram a relação
artesão/artista com a obra. O fato de esta última
não estar
mais sob a tutela da Igreja propiciou uma cultura laicizada.
O pensamento do autor, livre dos dogmas religiosos, tornou-se
soberano, embora sua atividade criadora estivesse sob o
império do novo cliente: o mecenas.
Um aspecto fundamental
da Renascença foi o humanismo. Este valorizava
o homem, devido à sua capacidade criadora e autonomia
perante Deus e a natureza, procurando compreendê-la
dentro desta última e da história.
As renovações religiosas, as concepções
políticas
e o naturalismo, por exemplo, são características
deste processo.
Harmonia e proporção
O
Renascimento caracterizou-se por um paradoxo que pode
ser explicado pelo conceito de beleza. Ela poderia
ser encontrada tanto na natureza quanto no gênio
dos antigos, embora este fosse o modelo primordial. A beleza
ideal deveria ser racional e comumente era obtida através
de estudos matemáticos e anatômicos.
Todos
os mecanismos na busca do belo eram rigorosamente controlados,
o que exigia novas formas de cálculo,
inclusive com a introdução de algarismos
arábicos. A beleza residiria na união entre
proporção e harmonia, ambos reflexos da perfeição
de Deus: era a proporcionalidade harmoniosa da divina natureza.Para
tanto, o artista deveria obedecer rigorosamente a certas
regras de proporção, acentuando a harmonia
matemática do mundo e a determinação
da natureza como um sistema universal de leis.
O homem
do Renascimento estava muito envolvido com estudo da anatomia,
a análise
racional da proporção e com a invenção
da perspectiva geométrica. Ver significava conhecer,
ou seja, a experiência sensível
guiava os sentidos, os quais não eram passíveis
de qualquer engano.
Os artistas
se tornaram instrumentos dos potentados que desejavam marcar
para sempre seu fausto e sua glória. Era um privilégio
possuir uma obra de arte de um artista renomado, pois era
símbolo de pertença
a uma classe alta na hierarquia social e significava, sobretudo,
que se detinha o poder. As obras de arte eram insígnia
de poder de seus proprietários.
O comentário de Vasari ilustra o fato: “nos
aposentos de Lourenço
de Médici, o Magnífico, ostentando pinturas
vulgares, mas de ótimos
mestres”. Entretanto, o auxílio do encomendante
oficial fazia-se necessário à sobrevivência
dos artistas, que passaram a trabalhar nos ateliêsdos
mestres sob encomenda para os príncipes
que, por sua vez, tornaram-se mecenas, logo, colecionadores.
Os mecenas exerciam o controle da arte ao proporcionarem
as condições materiais para
a produção artística, como pensões
e prebendas.
Saber
profano
O antigo
artífice medieval foi elevado, no século
XV, à condição
de homem de idéias. Passou a ser visto como intelectual,
sendo dele exigidos todos os conhecimentos e quase todas
as técnicas. O ato não
tinha mais valor se não estivesse associado a uma
decisão mental,
a qual era desvalorizada sem o ato. Por isso, havia um
excepcional interesse e estímulo às técnicas
durante o período renascentista.
Elas representavam uma possibilidade de expressão
de uma estrutura de pensamento emergente: o novo saber
profano.
Durante
a Renascença, os artistas passaram a merecer o status de
gênios,
aqueles que possuem o dom. Pela primeira vez, começaram
a se impor como personalidades independentes, comparáveis
a poetas e escritores. Os pintores e escultores renascentistas
investigaram novas soluções
para questões visuais ligadas à forma, sendo
que muitos deles realizaram experiências científicas.
Nesse contexto, surgiu a perspectiva linear na qual as
linhas paralelas eram representadas em ponto de fuga. Os
pintores passaram a ser mais exigentes com o tratamento
da paisagem, dedicando maior atenção à representação
de árvores, flores, plantas, distância entre
montanhas e os céus
com suas nuvens.
O efeito da luz natural e o modo
como o olho percebe os diversos elementos da natureza
tornaram-se novas preocupações.
Assim, nasceu a perspectiva aérea, na qual os objetos
perdem os contornos, a cor e o sentido de distância à medida
que se afastam do campo de visão. Os pintores do
norte da Europa, especialmente os flamengos, revelaram-se
mais avançados que os italianos na representação
das paisagens e introduziram o óleo como nova técnica
pictórica, contribuindo para o desenvolvimento desta
arte em todo o continente. Atribui-se a Jan Van Eick a
invenção da tinta a óleo.
A
temática
da pintura resumia-se à produção
de retratos, temas mitológicos
e religiosos. Havia um naturalismo exacerbado na representação
da figura humana. É importante observar a individualização
dos rostos representados. Um bom exemplo é o retrato
de Lisa Gherardini, ou Mona Lisa. A técnica empregada
pelo artista, o sfumatto, confere
um aveludado verossímil à pele da personagem.
A
inovação
da pintura Renascentista está, antes de tudo, ligada à questão
da técnica científica. A tinta a óleo,
o emprego da perspectiva, o claro-escuro e o naturalismo
afastam-na, progressivamente, das reminiscências
medievais.
* Juliana Rodrigues é formada em
Educação
Artística pela UERJ, onde dá aulas no curso
de graduação em História da Arte,
e é pós-graduada em Arte e Filosofia pela
PUC-Rio. Atuou no CCJF ministrando diversos cursos de Arte,
entre eles Renascença: a conquista da realidade.
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