Home > Centro Cultural > Sala de Imprensa > Notícias

 
Foto: Thiago Fernandes

“Minha arte deve
transpirar realidade”

Sergio Mota

Assessoria de Comunicação Social CCJF
Tels. (21) 3261-2576 / 3261-2558
imprensa.ccjf@trf2.gov.br

A exposição De Santa à Central – Paixão pelo futebol, sediada pelo CCJF no ano passado, reuniu 22 miniaturas de construções populares feitas de papelão que mapeiam as características arquitetônicas nos trajetos que vão de Santa (Tereza ou Cruz) à Central. O artista plástico Sérgio Cezar, conhecido como o “arquiteto do papelão”, revelou a vida cotidiana dos moradores dessas regiões, juntamente com as modificações que foram realizadas nas ruas em função da última Copa do Mundo e da paixão pelo futebol. A riqueza de detalhes das construções populares em papelão, que valoriza uma estética do infinitamente pequeno, é o que mais impressiona no trabalho de Sérgio Cezar, um ex-jogador de futebol. Dessa riqueza criativa emana uma identidade cultural plena de sentimentos de pertencimento social, inspirada no Rio de Janeiro, mas presente em tantos outros lugares.

Foto: Thiago Fernandes

 

Foto: Thiago Fernandes

O papelão é a origem de suas impressionantes miniaturas, que aos poucos vão ganhando a forma de perfeitos sobrados e casarios antigos. O interessante no seu trabalho é que a matéria-prima de suas instalações e esculturas é o lixo. De entulhos e sucatas, ele é capaz de construir artisticamente casinhas, sobrados, bares, cortiços, morros inteiros. Suas obras, ricas em detalhes, contam histórias, revelam o que muitas vezes nossos olhos já não podem ver. As esculturas são vivas, iluminadas, com sons característicos do lugar que representam.

Há vinte anos, Sérgio Cezar trata de questões como meio ambiente e inclusão social. Em 1988, criou a ONG Recuperar-te, com o objetivo de desenvolver projetos de inclusão social. Lá, Sérgio dá cursos de artesanato para crianças e jovens de comunidades carentes. O artista é um visionário que faz uso improvável do papelão como ferramenta de uma arte impactante, daquelas que convidam à reflexão. Com mãos hábeis e muita pesquisa, o artista é pródigo em metamorfosear sucata com precisão cirúrgica.

Foto: Thiago Fernandes

Aqui reproduzimos a  conversa que Sérgio Cezar manteve conosco sobre a materialidade de seu trabalho, sobre fazer arte no Brasil, e, principalmente, sobre como sua arte está ligada à memória e à tradição.

Clique nas imagens
para ampliar















CCJF – Como você definiria a peculiaridade de seu trabalho em papelão?
Foto: Sérgio MotaSérgio Cezar – Há um crítico de arte que diz que o meu trabalho é uma espécie de “arquitetura Garrincha”, e eu achei isso muito interessante. Garrincha sempre ia para o mesmo lado, sempre dava o mesmo drible, mas, na sua previsibilidade, ninguém conseguia pará-lo. A metáfora é a seguinte: todo mundo sabe que vou construir um cortiço, uma favela, mas cada vez que você vê isso tem uma alma e uma emoção diferentes. Isso tem a ver com amadurecimento. Agora, eu estou com a idéia de colocar sons no meu trabalho. Na entrada da exposição, há uma reprodução de uma favela, sonorizada.

CCJF – Que tipo de som? Funk, hip-hop etc?
Sérgio
– Não, são os sons da favela: o vendedor de vassouras, o cachorro latindo, a criança correndo, chorando, polícia etc. E isso é uma evolução no trabalho. Esses sons vão ter uma seqüência que acompanha a evolução desse dia-a-dia. É importante prestar atenção neste detalhe.
CCJF – Como é ter sido jogador de futebol profissional no passado e agora, já na condição de artista plástico, estar exibindo trabalhos inspirados no esporte, uma espécie de mote da exposição?
Sérgio
–Eu jogava para ajudar minha família, mas sempre nos intervalos eu já me interessava por arte. Quando fui à Europa, comprei uma máquina fotográfica e fotografava tudo. Na Espanha, enquanto as pessoas perdiam tempo jogando baralho no hotel, eu ia para o Museu do Prado ver arte. Em 1980, parei de jogar. Comecei do zero. Arte no Brasil é difícil, os apoios são mínimos, ainda mais a uma arte como a minha, que é o reaproveitamento do lixo. Há 25 anos atrás, eu jamais pensei que isso fosse me levar para Boston, por exemplo, e, mais ainda, fossem respeitar meu trabalho não como artesanato, mas como arte.
CCJF – Essa questão do reaproveitamento do lixo, da reciclagem, é algo recente. Transformar isso em arte é realmente um trabalho inovador.
Sérgio – Exatamente. A favela é a arquibancada do povo. O campo de futebol é o asfalto. O meu trabalho não retrata a pobreza, mas a poesia que o povo tem. Eu via meu avô, meu tio, as pessoas que meu pai e eu ajudávamos na favela, as crianças com quem sempre trabalho. Não retrato a violência. Trabalho com o outro lado, com o valor arquitetônico, histórico, que esses sobrados têm. Mas ninguém se preocupa com isso.

CCJF – Vive-se hoje a época da ausência de memória. Seu trabalho é algo que vai contra isso, já que ele intenta resgatar essa memória perdida ou aquilo que está em vias de desaparecer.
Sérgio – Estão cuidando muito da Lapa nos últimos tempos. Mas existe o Méier, Madureira, Engenho da Rainha, etc.

CCJF – De Santa à Central, não? (risos). Não é à toa que Carioca, novo cd de Chico Buarque, abre com uma canção que é uma ode ao subúrbio, uma espécie de anti-zona sul.
Sérgio – É isso. O morador desses cortiços não tem uma verba para manter essa arquitetura com dignidade. A verba teria que vir do Estado. Os europeus têm essa preocupação, é uma questão de educação, ligada à questão do patrimônio histórico. Depois que acabar, só em fotografias. Como é o caso do Palácio Monroe. É lindo, não? Mas não existe mais, só em fotografia. Isso é muito sério. Em Ramos, soube que recentemente derrubaram 60 casas por conta de obras do metrô. Na Europa, isso é inadmissível. Não é deixar de levar o progresso, mas tomar cuidado para não enfraquecer a memória.

Foto: Gloria HortaCCJF – Aqui é editada uma revista de cultura chamada Atrium. Na número 8, saiu uma matéria sobre a construção da Avenida Central, por conta de uma exposição que esteve em cartaz aqui, no ano passado. O texto enfoca a questão da ausência de assimilação da memória. E também como esses processos modernizadores partem de uma raiz excludente e autoritária, que não respeita a tradição. Acho que esse é o ponto nodal da questão, é disso que subliminarmente suas obras falam. Mas mudando de assunto: o que impressiona no seu trabalho são os detalhes, principalmente os internos. Como você chega a essa precisão quase absoluta?
Sérgio – Não é fácil. É um trabalho de observação, que depende do contato com os moradores desses cortiços. O trabalho não termina enquanto não vejo a alma do lugar, o humano. Na exposição, há um barraco com uma janela bem pequena, mas se olhar bem, há um cavaquinho, um tamborim e um surdo. Para incorporar esses detalhes, me recuso a usar pinça. Uso as mãos. E o problema é que tenho mãos enormes (risos). Não faço redução em computador dos objetos que estão dentro dos cortiços, procuro em revistas, na escala do trabalho que estou fazendo. O contrário seria muito fácil, mas ficaria mecânico demais. Não trabalho com escala, minha escala é a do olho.

 

 

De Santa à Central – Paixão pelo futebol
Período:De 04/05/2006 a 11/06/2006.

Assessoria de Comunicação Social CCJF
Tels: (21) 3261-2576 / 3261-2558
imprensa.ccjf@trf2.gov.br

 

 
 
 
 
 

Rampa de acesso
para pessoas com necessidades especiais
Av. Rio Branco, 241 – Centro, Rio de Janeiro / RJ. CEP 20040-009
Aberto de terça a domingo, das 12h às 19h. Tel. (21) 3261-2550
Visitas orientadas – Tel (21) 3261-2552
Biblioteca – terça a sexta-feira, das 12h às 17h