| “Vidas
todos os dias” nasceu do desafio lançado
por Rosa Couto, diretora da Cerciespinho (Cooperativa
para a Educação e Reabilitação
de Crianças Inadaptadas), entidade portuguesa
de terapia ocupacional, ao fotógrafo Marcus
Garcia Moreira, para a criação de um
objeto artístico que retratasse a população
com deficiência e que fosse veículo
de intervenção junto ao público,
servindo de objeto de estudo, reflexão e discussão
de uma realidade específica.
Durante o período de construção
do objeto, surgiu a parceria com outras entidades
patrocinadoras, o que possibilitou a edição
de um livro com o registro dos 30 anos de trabalho
da instituição, com renda revertida
para a própria entidade (apenas em Portugal)
e a realização de exposições
itinerantes que não se restringissem às
fronteiras da nacionalidade, com o fim de mostrar às
pessoas a realidade dos portadores de deficiência
e os meios e condições criados para
seu desenvolvimento e integração na
vida social e profissional.
Concepção
A mostra pretende romper com a tradição
de representação daquele mundo, anunciando
um futuro de constante desafio ao nosso modo de perceber
essa sensível área social.
O trabalho demonstra a experiência de aproximação
e vivência partilhadas com os corpos
docente e discente da Cerciespinho.
Constitui-se, na sua maior parte, por retratos,
de caráter artístico-documental, dos
indivíduos que convivem na Cooperativa. Divide-se
em duas fases: na primeira se estabelece uma leitura
direta e objetiva das imagens, onde existe a confrontação
com o outro, mediante o contato com o objeto. Está representada
em 24 retratos posados, com técnica fotográfica
acurada, destacando a individualidade de cada retratado
e sua interação com o meio, seja no
ambiente profissional, seja nos momentos de lazer.
Alguns chegam, inclusive, a ser exemplos de como
alguns deficientes podem se apresentar sem que o
menor traço da deficiência seja reconhecido.
Há a intenção de mostrar, de
forma honesta, imparcial, sem sentimentalismo ou
paternalismo, um mundo que possui voz própria
e é detentor de tudo o que, em essência,
nos faz humanos.
Na segunda, sob forma de instalação,
o fotógrafo construiu uma visão impregnada
de questionamentos sobre o universo da instituição,
interagindo e apropriando-se das imagens iniciais,
captando os momentos, os gestos do cotidiano das
atividades internas, trabalhando-as, em seguida,
de uma forma plástica. Isso se dá pela
manipulação das fotografias, usando
técnicas fotográficas analógicas,
e resulta em imagens onde a realidade inicial ainda
está presente, porém agora contaminada
por elementos pertencentes a universos variados,
que lhes fornece outros atributos que se sobrepõem à sua
característica original, de caráter
mais documental.
Este efeito traduz-se por 30 imagens de fraca definição,
dispostas em caixas de luz, onde alguns referentes
iniciais se tornam menos reconhecíveis, possibilitando
a cada espectador a projeção de uma
realidade baseada na sua própria experiência
individual. O resultado são dois corpos fotográficos
autônomos, com pretensões e formas distintas
de tratamento e relacionamento com a deficiência.
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